AVE DEMÉTER!

A deusa Ceres, nome romano da grega Deméter (literalmente, deusa-mãe), era  reverenciada por mulheres em rituais secretos no festival de Ambarvalia, celebrado em maio, em pleno esplendor primaveril. Um templo dedicado e ela fora erguido no monte Aventino, em Roma. O primeiro festival votivo à deusa era a Cereália ou Ludi Ceriales (jogos de Ceres), surgido no século III a.C., estendendo-se de 12 de abril a 19 do mesmo mês. Seu culto era popular particularmente entre os plebeus, agricultores e comerciantes de cereais.
Em sua representação grega, como deusa da agricultura, é aquela que devolve a fertilidade à terra, simbolizada no retorno à superfície de sua filha Perséfone, raptada pelo deus das profundezas Plutão (Hades), que dela fizera sua rainha. Em  certo sentido, as duas, mãe e filha, representam as duas faces da mesma deusa, sendo Deméter o cereal velho e Perséfone, renascida como Core, o cereal novo. Os ritos de Elêusis, transformados numa celebração nacional, ampliavam as antigas e rústicas cerimônias dos camponeses da Grécia, uma das quais foi testemunhada pelo poeta Teócrito, na ilha de Cós, num dia outonal, há cerca de 2.110 anos.

O mistério que envolve a maternidade, ligado ao ciclo de morte e renascimento, parece ter sido o cerne de uma religião ginocêntrica que floresceu na Europa e em outras partes do mundo, a partir do ano 10.000 a.C., quando, depois de um período de grandes catástrofes, a agricultura passou a figurar como o principal meio de subsistência. E Deméter, deusa nativa dos povos egeus, representa, mais do que qualquer outra deidade, a resistência aos invasores indo-europeus, liderados pelo tonitroante Zeus, tornado seu irmão e amante na religião grega posteriormente constituída, que assumirá, a partir de então, uma feição patriarcal. Os seus ritos, no entanto, continuaram até a Era Cristã (séc. IV) e deles dá um testemunho generoso Santo Agostinho.
Esposa do Rei do Céu, Mater-dolorosa, mãe e filha ao mesmo tempo, Deméter, assim como a Devi védica, vive em nossos sonhos e em nossas esperanças, como a terra que nos alimenta e que, generosamente, um dia, nos envolverá em seus braços maternais.
Marco Haurélio

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